Andrey Escarião

Pesquisas, contos e ciência.

Reconhecimento de rede interna com Nmap, o que cada varredura revela

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Em teste interno, o reconhecimento decide o resto do trabalho. Quem varre errado enxerga metade da rede e conclui que o ambiente é pequeno. Quem varre com força demais derruba um controlador industrial e encerra o projeto na primeira hora.

O que separa os dois é entender o que cada varredura faz por baixo.

Comece descobrindo hosts, não portas

Antes de saber o que roda, é preciso saber quem existe. Em rede interna a descoberta por ARP é a mais confiável, porque não depende de o host responder a ping.

sudo nmap -sn -PR 192.168.10.0/24 -oA descoberta

O -PR força ARP, que funciona mesmo em máquina com firewall bloqueando ICMP. Se você usar só -sn sem especificar, o Nmap decide sozinho e pode perder hosts que ignoram ping.

O -oA grava nos três formatos de uma vez. Faça isso sempre: refazer varredura porque você não salvou é desperdício de janela de teste.

Portas: o que cada tipo de varredura significa

ComandoO que fazQuando usar
-sSEnvia SYN e não completa a conexãoPadrão em teste interno, rápido e discreto
-sTCompleta a conexão TCPQuando não há privilégio de root
-sUVarre UDPEssencial, e quase sempre esquecido
-sVIdentifica serviço e versãoDepois de mapear as portas abertas
-OTenta identificar o sistema operacionalÚtil, mas menos confiável que o banner do serviço

O UDP merece atenção especial. Serviços críticos vivem lá: DNS, SNMP, NetBIOS, sistemas industriais. Varredura UDP é lenta porque a ausência de resposta é ambígua, então limite as portas em vez de pular a etapa:

sudo nmap -sU --top-ports 50 192.168.10.0/24 -oA udp

SNMP com comunidade padrão ainda é achado comum, e entrega o inventário inteiro do equipamento sem esforço.

Velocidade sem quebrar nada

Os modelos de temporização vão de -T0 a -T5. O padrão é -T3.

A tentação é usar -T4 ou -T5 para terminar logo. Em rede corporativa comum, -T4 costuma ser seguro. Em rede com equipamento antigo, impressora de rede ou qualquer coisa industrial, não passe de -T2. Já vi impressora parar de responder e linha de produção sinalizar falha por causa de varredura agressiva.

Quando o ambiente tem equipamento sensível, exclua explicitamente:

sudo nmap -sS -T2 192.168.10.0/24 --exclude 192.168.10.5,192.168.10.6 -oA cuidado

Essa lista de exclusão sai do documento de escopo, que precisa existir antes do primeiro pacote, como tratei em OSINT na Investigação de Cibercrimes ao falar dos limites entre observação e intrusão.

Os scripts que rendem mais

O motor de scripts do Nmap faz metade do trabalho de enumeração, desde que você escolha os certos.

# o que compartilha arquivo sem exigir autenticacao
sudo nmap -p445 --script smb-enum-shares,smb-os-discovery 192.168.10.0/24

# certificados: revelam nomes internos e datas de validade
sudo nmap -p443 --script ssl-cert,ssl-enum-ciphers 192.168.10.0/24

# credenciais padrao em servico web
sudo nmap -p80,8080 --script http-default-accounts 192.168.10.0/24

Evite --script vuln em teste com cliente presente sem avisar: alguns scripts dessa categoria são intrusivos e podem derrubar serviço.

Lendo o resultado como um atacante

Lista de portas abertas não é achado, é matéria-prima. As perguntas que transformam varredura em caminho:

  • O que está exposto e não deveria? Banco de dados escutando em toda a rede, painel administrativo em porta alta, compartilhamento aberto.
  • O que está desatualizado? Versão antiga de serviço com falha pública conhecida é o atalho mais direto.
  • O que se repete? Mesma versão de serviço em cinquenta máquinas significa que uma falha vale por cinquenta.
  • O que destoa? Uma máquina com portas diferentes de todas as outras costuma ser servidor esquecido, e servidor esquecido não é atualizado.

Organizando para o relatório

O formato greppable serve exatamente para isso:

grep "Ports:" descoberta.gnmap | awk '{print $2}' | sort -u > hosts_vivos.txt
grep -E "open" servicos.gnmap | cut -d' ' -f2,4- > abertas.txt

Com essas duas listas você monta a tabela de superfície interna que vai para o relatório, e consegue comparar com a varredura do reteste para mostrar o que foi corrigido.

O erro que custa o projeto

É varrer fora do escopo. Faixa de rede escrita errada, uma máscara trocada, e a varredura alcança a rede de um vizinho ou do provedor.

Antes de rodar em produção, confirme o alvo com -sL, que apenas lista os endereços que seriam varridos, sem enviar um único pacote:

nmap -sL 192.168.10.0/24 | tail -5

Trinta segundos nessa conferência já me pouparam de mais de um susto. É o comando mais barato do arsenal e o mais ignorado.