Andrey Escarião

Pesquisas, contos e ciência.

Passkeys em ambiente corporativo, do piloto à adoção

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5 min de leitura

Autenticação sem senha deixou de ser promessa. A tecnologia está madura, os sistemas operacionais e navegadores dão suporte, e os grandes provedores de identidade já entregam a funcionalidade pronta.

O que ainda derruba projeto de passkey em empresa não é técnico. É operacional: ninguém pensou no dia em que o funcionário troca de celular, e o piloto morre na mesa do suporte.

Escrevi sobre o conceito em Passkey: a Evolução da Autenticação Digital. Aqui trato da implantação.

Por que passkey resolve um problema que MFA por SMS não resolve

A diferença central é que a credencial nunca sai do dispositivo. Não existe segredo compartilhado para o servidor guardar, e não existe código para o usuário digitar em uma página falsa.

Isso mata de uma vez a classe de ataque mais rentável contra empresa brasileira: a página de phishing que captura senha e, na sequência, pede o código do segundo fator. Com passkey, a assinatura é vinculada ao domínio de origem. O site falso simplesmente não recebe credencial válida, ainda que o usuário queira entregar.

É a contramedida direta ao cenário que descrevi em Spear Phishing em 2025.

Antes do piloto: três decisões

Onde a chave vive. Passkey sincronizada, guardada no chaveiro da conta pessoal do usuário, tem adoção fácil e recuperação simples. Passkey vinculada ao dispositivo ou a uma chave física é mais forte e mais rígida. Para a maioria das empresas, sincronizada nos usuários comuns e chave física nos administradores é o equilíbrio correto.

Quem entra primeiro. Não comece pela diretoria. Comece por um grupo tecnicamente confortável e com apetite para reportar problema, tipicamente TI e desenvolvimento.

O que acontece com a senha antiga. Esta é a decisão que define se o projeto reduz risco ou apenas adiciona conveniência. Passkey convivendo com senha ativa deixa a senha como caminho alternativo, e o atacante vai usar o caminho fraco. A meta precisa ser desativar a senha ao final, não só oferecer alternativa.

Fase 1: piloto, de duas a quatro semanas

  1. Ative o suporte a passkey no seu provedor de identidade, sem tornar obrigatório.
  2. Cadastre o grupo piloto, exigindo dois autenticadores por pessoa desde o início. Um só é o que gera o chamado de recuperação depois.
  3. Documente o procedimento de cadastro com capturas de tela reais do seu ambiente, não do material do fornecedor.
  4. Meça: tempo médio de login, chamados abertos, tentativas de login que falharam.

Fase 2: o que vai quebrar

Vale antecipar, porque acontece em praticamente toda implantação.

ProblemaCausaComo tratar
Aplicação antiga não suportaSistema legado que só aceita usuário e senhaColocar atrás do provedor de identidade, ou manter exceção documentada com prazo
Cliente de e-mail reclamaProtocolos antigos não falam o padrão modernoMigrar para cliente que usa autenticação moderna e desativar os protocolos legados
Usuário troca de celularAutenticador único registradoExigir dois autenticadores no cadastro, sempre
Computador compartilhadoChave sincronizada em conta pessoal não serveChave física por turno, ou crachá com certificado
Suporte vira alvoAtacante liga pedindo reset de autenticadorProcedimento de verificação de identidade fora de banda, obrigatório e auditado

Esse último item merece destaque. Quando você fecha a porta da frente, o atacante bate na porta de serviço, e a porta de serviço é o atendimento humano. Um processo de recuperação frouxo anula toda a implantação.

Fase 3: adoção ampla

Expanda por grupo, nunca de uma vez. A cada grupo, repita a mesma sequência: comunicar antes, cadastrar com acompanhamento, medir por duas semanas, só então avançar.

Comunicação importa mais do que parece. A mensagem que funciona não é “vamos aumentar a segurança”. É “você vai parar de digitar senha”. O ganho percebido pelo usuário é conveniência, e é isso que gera adesão voluntária.

Fase 4: desligar a senha

É a fase que dá o retorno, e a que mais gente adia até nunca acontecer.

Faça em três degraus: primeiro a senha deixa de ser oferecida na tela de login, embora ainda exista. Depois ela é bloqueada para o grupo já migrado. Por fim, é removida.

Entre um degrau e outro, olhe os registros de autenticação. Se ainda há login por senha acontecendo, existe um caminho que você não mapeou, e é exatamente ali que o atacante vai entrar.

O que medir para saber se deu certo

  • Cobertura: percentual de contas com pelo menos dois autenticadores registrados.
  • Uso real: percentual de autenticações por passkey sobre o total. Cobertura alta com uso baixo significa que a senha continua sendo o caminho preferido.
  • Chamados de recuperação: por mil usuários por mês. Se subir e não cair, o procedimento de cadastro está mal explicado.
  • Contas ainda com senha ativa: a meta é zero, e enquanto não for, o número precisa estar caindo.

Um alerta final

Passkey protege a autenticação, não a sessão. Depois que o usuário entra, o que vale é o cookie de sessão, e roubo de sessão continua funcionando contra qualquer método de login.

Portanto, implante passkey e mantenha o que já protege depois do login: expiração razoável de sessão, verificação de dispositivo e monitoramento de comportamento anômalo, do jeito que tratei em Monitoramento Avançado com XDR no SOC. Trocar a fechadura não adianta se a janela fica aberta.