Seca que parece molhar o asfalto
É miragem da esperança
Vista fraca, fome braba, a água…
Que falta faz, meu nordeste
A caveira da bezerra, o sino do bode
O redemoinho de vento
A rapadura e o doce de leite
Nordestino, cabra macho
Coração puro, humilde e educado
Aprende pelo dicionário
Da solidariedade e do trabalho
Do sol que castiga, mas dá luz e dá vida
O creme da pele é o suor do trabalho
Subiu a ladeira e desceu com balde d’água
Andar com aleijo, um jeito claudicante
Atravessa vento seco, esguio
Num sertão cheio, vazio e gigante
Montado na graça e bom humor
O gado morre, ele chora, e morre a plantação
Escorre dos olhos o único líquido
Segue nordeste, aumenta a paciência
Além de muita beleza, seca e natureza
É o sertão paraíso, o sertão honesto
Ou é seca, ou chove logo
O que tem de melhor, recebe e te oferece.
Do outro lado, a cidade, grande e nebulosa
O talvez é a certeza, a resposta é o depende
Promessas, pressa; sem destino, falso estímulo
Coração sem sangue, verde, mão branca
Olho vazio, ouvido surdo
Alma imunda, plenitude da falsidade
Desconheço sua verdade
Sua intenção, não entendo
Destrói a cor, constrói a dor
Cidade grande, ruinas de excesso
Felicidade sem nexo.